CEP, por favor
Os brasileiros já estão acostumados a informar o CEP para tudo: aplicar para um trabalho, usar aplicativos de supermercado, passar no consultório, tirar carteira de motorista ou até trocar dólar. A pergunta vem automática, quase sem pensar.
O choque aparece quando a pessoa escuta: “eu não tenho CEP”. O olho arregala, olha para cima, meio perdido/a. O que deveria ser algo normal nos dias de hoje ainda causa espanto.
Essa pergunta me incomoda. Por que temos que ter um CEP? Por que sempre precisamos olhar pela mesma janela? A casa onde estou no momento é onde moro. Amanhã pode ser outra. Já morei em mais de 30 lugares.
Outro dia, ao pegar um Uber, fiquei feliz ao sair do carro porque o papo tinha sido com uma pessoa que também não tem CEP. Ele me perguntou em que cidade eu morava e aí a brincadeira começou. Comentei que não tinha casa fixa e que trabalhava com eventos, então estava sempre em um lugar diferente.
Foi quando ele falou: “Sou igual a você. Sou locutor esportivo, moro em hotel e as pessoas não entendem.”
Dali foram 30 minutos até a rodoviária, dando risada e contando as situações que passamos por não termos um CEP.
Ele comentou sobre o dia em que chegou em um hotel onde moraria por três meses e o rapaz da recepção pediu para ele preencher uma ficha. Lá tinha o item “CEP”. “O motorista então perguntou: Qual é o CEP deste hotel? Porque esta será minha casa pelos próximos três meses, então você pode colocar este CEP.”
Depois de tantos aeroportos, hotéis, arenas e cidades diferentes, talvez eu tenha entendido que lar nem sempre é um lugar físico. Algumas pessoas pertencem a um endereço. Eu pertenço ao movimento.